segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Bucolismo

Pequena acerola colhida "no pé", na hora.
Durante muito tempo tenho sido rechaçado familiarmente por um bucolismo que, na verdade, não sei se existe de fato. Sim, esse bucolismo que me leva a ser apaixonado pelas coisas do campo. Não qualquer coisa, diga-se de passagem, mas aquelas coisas minhas, de outrora. Quem sabe não seja um bucolismo, mas sim uma nostalgia disfarçada, já que a curtição pelo novo confronta-se diretamente e, sem dúvida, há uma enorme intenção de aquisição de novos conhecimentos e sensações.
Porém, tudo isso dito, não se afasta a vontade marota de pisar no chão de terra pura da nossa casa. Às vezes me perguntado se toda essa paixão estaria direcionada apenas a "nossa casa", remontando um certo ostracismo ao alheio, mas não é verdade. Diversas vezes fui em busca de passeios centrados na nossa paisagem natural como roças, cachoeiras, rios, comidas típicas e tantos outros. Todavia, esse sentimento se intensifica diante do "próprio", pois vem acompanhado daquele sentimento de aconchego, de tranquilidade, de saudade, de cuidado e carinho com cada detalhe. Afinal esse foi um palco de inúmeros capítulos e cenas próprias, chega a ser algo meio assim, umbilical. Lembro inclusive de um episódio onde um médico da família relatou que pacientes infantis, ainda que desprovidos de posses e notoriamente habitantes de moradias ultra-precárias, clamavam sempre a volta para a própria casa, apesar da melhor infra-estrutura hospitalar, ou seja, "nada como a casa da gente". Mas, mais uma vez reafirmo, isso não se contrapõe ao desejo de novidade e de tecnologias, muito pelo contrário, inclusive a tecnologia campestre me encanta também.
O bucolismo vem, sei lá, do cheiro, da vista, do ar, do som, mas tenho, confesso, dificuldade de decidir se é ou não suportável por muito tempo. Seria, talvez, um exercício bastante dolorido ficar recluso por muito tempo em um local como esse. Muito provavelmente, diante dos desafios que se haveriam de surgir no trato animal e vegetal, ou na organização geral não seria tão agradável a longo prazo e se transformaria em uma rotina sem válvula de escape. Mas, poderia ser diferente? Realmente não sei. Não vivi tal experiência. Tenho, é verdade, vislumbres. Fora do ambiente campestre, ao contratar serviços de terceiros, o senso de imediatismo está tão exacerbado que temos "agonia" por qualquer latência. Lá, não! Marcam-se visitas por dia e às vezes falha, mas a vida continua. Num outro dia, o "prestador" aparece e tem que ser bem tratado, pois a concorrência não é muito acirrada, se é que me entendem!
Ou seja, é um mundo diferente do nosso. Não dá para dizer se é melhor, pior, ou o que. Mas, dá para gostar, curtir, sentir saudade, desejar e planejar. É uma experiência agradável, mas nem sempre confortável. Confortável… Agradável… É tem-se muito o que conversar, mas, sobre estes dois, adiemos.
SK

Um comentário:

  1. Excelente texto sobre a nostalgia das raízes rurais. O excesso de urbanidade só acentua o contraste. Esquecemos dos pernilongos, do medo da cobra , do coice da égua. Ficamos com o céu estrelado, o banho de rio, as pescarias, o tempo sem pressa...

    GP

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